terça-feira, 14 de março de 2017

Flausino Fernandes Correia


Flausino Fernandes Correia
Médico e Presidente da Câmara Municipal (1963 a 1968)
Nasceu a 6 de Fevereiro de 1906 - Faleceu a 16 de Julho de 1983
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NÃO foi surpresa, porque se esperava esse triste acontecimento, mais dia menos dia. O nosso querido Amigo e Médico, a cujo Consultório íamos diariamente, mesmo que fosse só para lhe dizer BOM DIA!, estava doente há largos meses, com sucessivas crises cardíacas.


Era de presumir que uma viria a ser fatal. E só o não foi antes, muito antes, por ser Médico e, portanto, saber, como medicar-se e proceder, ao primeiro sintonia, até chegar o seu filho, o prestigioso Médico-lnternista a residir em Aveiro, DR, CARLOS CORRÊA, que passava comandar o processo.


O homem, porém, nunca aceita acreditar naquilo que não deseja. Nós sabíamos que isso viria a acontecer.


Mas esperavamos sempre por um imprevisível estabilizador, que nos afastasse esse cálice amargo, doloroso.


Quando, dez dias antes, um acidente cardiovascular o atingiu, o céu ficou mais plübeo. Mas, então, começou-se a orar pela recuperação da trombose. 0 DR. CARLOS CORRÊA, um dia, perdeu as esperanças. E disse-nos claramente que seu Pai tinha atingido aquele extremo em que o Médico abandona o doente, porque já não tem nada a fazer. Mas nós, os seus amigos, não acreditamos, sim, porque os Médicos, mesmo os melhores, também se enganam. Só que, infelizmente, ele não se enganou e à Meia noite e meia hora, o riquíssimo espírito do Dr. Flausino Corrêa desprendia-se do corpo, que já não servia a sua evolução, e regressava a Deus.


Não o vimos nem de cama nem morto. Assim, continuamos a recordá-lo vivo, no seu consultório. E ainda bem, porque é bem vivo e feliz que ele, o espírito liberto do Dr. Flausino Fernandes Corrêa, mais vivo do que todos nós, está agora.


Em 8 de Dezembro próximo, faria 50 anos que cá chegou, quando veio substituir seu primo Dr. Cláudio Torres. morto em acidente de viação. Era, pois, albergariense há cinquenta anos. E poucos, mesmo os naturais, o terão sido tão dedicadamente. Tão afincadamente, que cá ficou e jaz, em campa raza, no Cemitério de baixo, como é conhecido, ala direita, túmulo n.° 10. No dia em que teve o acidente vascular, pelas 15 horas, tinha vindo do café, e sentara-se no seu escritório a ler, Sua Mulher ,a Senhora Dra. Maria Celeste Monteiro, estava ao lado. Em dado momento, notou qualquer mutação na sua fisionomia e perguntou-lhe se não se sentia bem. Ele quis falar, mas teve dificuldade em articular a palavra. Então, indicou com a mão direita, um bloco-notas que estava à mão e escreveu, pela sua caligrafia, que nós lemos:
«Estava a ler o jornal e comecei a babar-me e a não poder falar. Vê lá se o membro superior tem movimentos.
Tinha que acontecer e já contava com isto desde há tempos.
Não tenham pena de mim.
O Carlos não deve levar-me para o Hospital. Prefiro ficar em casa.
Contava morrer do coração, de enfarte. Mas com esta doença -- acidente vascular cerebral, tenho receio de ficar entrevado, a dar mais trabalho à família,»
Ficou, de facto, em casa, uns dias melhor, outros dias pior. A parte esquerda estava afectada, Plenamente consciente, ele sabia o seu estado e talvez até desejasse o seu fim, porque a morte ,não o amedrontava. O que ele não queria. era dar trabalho. Disse-mo várias vezes, naquela sua expressão, que, nos Médicos nem. surpreende: «Morrer não é o problema. Lá morrer, todos temos de morrer.» E morreu no sábado, dia 16 de Julho. Viveu, pois, 77 anos, 163 dias e meia hora, se bem fiz as contas.
Ainda o não acreditamos bem. Ainda, todos os dias, quando lá passamos nos custa imenso entrar, não espreitar pela porta do consultório, na esperança de não ver o lugar vazio!
O.Dr. Flausino conheceu á que viria a ser sua Mulher, ainda estudantes do Liceu em Viseu. Mas o namôro começaria, mais tarde em Coimbra, onde a Senhora D. Maria Celeste Monteiro se licenciou em Farmácia e o Dr. Flausino em Medicina,
Em 1933, quando veio para cá, ainda estavam solteiros. Viriam a casar em 31 de Outubro de 1936, em S. João do Monte Tondela terra natal da noiva.
O Dr. Flausino 'Fernando Corrêa era natural do lugar de Mogueirães, freguesia de Cambra, concelho de Vouzela, distrito de Viseu.
Aqui viveram sempre e aqui lhes nasceram os filhos; a hoje Dra. Maria Helena Monteiro Corrêa, Professora do Ensino Preparatório em Aveiro, e casada com o nosso ilustre conterrâneo concelhio Dr. António Joaquim Marques Tavares, douto notário e Advogado em Vagos e o suso referido Dr. Carlos Monteiro Corrêa, casado com a nova Médica Senhora Dra. Maria Lisete Moniz Almeida Corrêa e já com o primogénito Daniel João, de 4 anos. O Dr. Carlos Corrêa vive em Aveiro e o seu consultório — e aqui o dizemos por nos haver sido solicitado por imensos leitores — é no 5º piso do novo edifício da OITA.
Por sua filha Dra. Maria Helena, o Dr. Flausino tem três netos: António Pedro, Teresa Maria e Ana Maria, que dá muitos ares do extinto Avô.
O Dr. Flausino, como era mais conhecido entre nós, era tanto albergariense, que á nossa Albergaria-a-Velha até procedeu com ele como procede com todos os seus filhos: má mãe e boa madrasta... Era da Câmara Municipal que deveria ser saído o seu funeral. Mas, da parte da Câmara, ninguém se mexeu!!! Isso não impediu que o seu funeral deixasse de ser uma das maiores manifestações de pesar a que temos assistido, em nossa já longa passagem pela vida. Sim, que o Dr. Flausino foi Presidente da nossa Câmara Municipal, de 1963 até fins de 1968, salvo erro ou omissão. E fez obra que se visse e ainda se está a ver, porque ainda se estão, ao que nos dizem, .a fazer coisas que vieram do seu Mandato. Assim, durante 1964 continuaram as diligências para a criação da Escola Técnica, tomando a C. M. de arrendamento um prédio para funcionamento de uma das suas secções e assumindo o encargo das despesas para adptação do respectivo edifício. Todo este problema prosseguiu até 1968, ano que a C. chamou a si a construção. Portanto, ESCOLA TÉCNICA.
Ainda em 1964, foi. adjudicada outra obra, que só terminou no ano seguinte e que foi O Abastecimento de Águas ao Angeja, Frossos e Frias.
MERCADO MUNICIPAL - Foi um dos seus grandes sonhos e que realizou. Veio a ser concluído em 1967.
Outra grande obra e que é fundamental para uma nova estrutura urbanística da nossa vila, era o PLANO DE URBANIZAÇÃO
É que todas estas realizações davam imenso trabalho, embora o Estado tivesse outra organização, que esta bagunçada hoje não tem.
Outra Obra e que ainda não está completa, tal a sua complexidade, mas que vem do seu mandato, é O SANEAMENTO DA VILA.
Outra Obra do Dr. Flausino, que, embora já criada, o era só no papel, porque não funcionava e ele com a C. conseguiram pôr de pé, foi a BIBLIOTECA MUNICIPAL. A Biblioteca Municipal Américo Martins Pereira foi inaugurada em Abril de 1965, sob o patrocínio da Fundação Caloust Gulbenkian.
A CASA DA JUSTIÇA - Só viria a ser inaugurada muito depois, mas o arranque dos trabalhos para a sua construção foi de Janeiro de 1965.
AS CASAS DA AVENIDA DA ASSILHó - Também foram concluídas em 1965, na Avenida da Assilhó, o nome popular dado à Avenida Dr. Bernardino de Albuquerque.
HABITAÇÃO SOCIAL - Muito significado teve a conclusão de 12 casas para pobres, em 1965, pelo contributo que veio a dar para dirimir o flagelo social que era e continua a ser o das carências habitacionais. De referir com particular interesse, que foi em 1967 que foram abertas as perspectivas para a construção das Casas de Renda Económica, em um total de 30.
ABASTECIMENTO DE ÁGUA À VILA - Foi sob o seu mandato que foi substituída a conduta de água à vila, Sobreiro e Assilhó.
ESCOLAS PRIMÁRIAS E CANTINAS ESCOLARES - Algumas Escolas Primárias foram construídas sob o seu mandato, com destaque especial para a de Fontes (Alquerubim). E foi a C. M. da sua presidência que mandou construir cantinas escolares em Alquerubim, Albergaria e Loure.
E isto é só um apanhado, per suma capita, porque estamos a dar uma noticia e não a fazer História de Albergaria, para que nos faltam unhas... Mas essa está em boas mãos.


FUNERAL


Sob a organização impecável da Agência Funerária Pascoal - Madail, começou, às 16 horas precisas, o seu funeral. Estava muitíssima gente, tanto de perto como de longe. Um dos nosos amigos veio dizer-nos isto: Tome aí nota e ponha lá isso: -Está tanta gente de Albergaria, que se sabe quem não está.» Não era Albergaria. De todo o concelho e distrito. E até de bem longe!
O Industrial Senhor Alberico Martins Pereira, impossibilitado de vir fez-se representar pelo nosso Director.


Conduziu a Toalha seu genro Dr. António Joaquim Marques Tavares e a Chave seu Filho Dr. Carlos Corrêa.


A ALBA estava largamente representada pelo seu co-herdeiro Senhor António Augusto de Lemos Martins Pereira e sua Mulher, pelo Senhor Eng.' Pedro Martins Pereira e sua Mulher e pela Senhora D. Sara Martins Pereira.


Sua Ex.' Reverendíssima o Senhor Bispo de Aveiro veio rezar o Terço à câmara ardente.
Do Porto, expressamente vieram o Prof. Doutor António Homem Corrêa Telles de Albuquerque Pinho e sua Mulher a Prof.' Universitária Doutora Alda de Albuquerque Pinho e o nosso amigo Arménio Alho. De Aveiro, muita gente! Notamos o Dr. Danton Paixão Nifo, o oftalmologista Dr. Candal, o Dr. António Nogueira de Lemos e sua Mulher. De Vagos, o Senhor Deputado Dr. Frederico de Moura. De Águeda, o Dr. António Sucena e sua Mulher. E, de cá, porque raramente são vistos em funerais, o Dr. Quina Ferreira e o Dr. Jacinto de Almeida.


Facto comovedor: lágrimas em centenas de olhos. Dos que melhor conhecemos, notamos lágrimas irreprimíveis no Lene Paiva e no José Carlos Vidal.


Alguns conseguiram contê-las — ou porque estavam «dopados», como agora se diz, ou porque terão um temperamento mais sereno. Esses mesmo, expressavam uma dor, que era bem visível. Era o caso, por exemplo, do José Marques Pereira, do Fontão, que era raro o dia que não nos encontrava-mos no consultório do Dr. Flausino. E era o caso do Vicente Páramos, que eslava com toda a sua Família, amigo íntimo, que ficou lá várias noites, durante a doença.


Salvo erro, seis Padres oficiaram no funeral: o nosso Arcipreste José Maria Domingues, o Senhor Prior de Cassurrães, no concelho de Mangualde, Celestino Corrêa Ferreira, que fez uma homilia impressionante durante a Missa de corpo presente, na Igreja Matriz, o Prior Raul da Cruz, o Padre Brinquete, o Padre Albino de Pinho, o Reitor de Cacia Manuel Armando Rodri- gues Marques e o Vigário de Cambra, freguesia natal do ilustre extinto.


Claro que estava muita família, tanto do lado do Dr. Flausino como do lado da Senhora Dra. Maria Celeste Monteiro,, que nós não conhecemos.


O Dr, Flausino Corrêa fez muita falta, para além da Família e dos seus doentes a quem se dedicou para além dos limites das suas forças! Numa das últimas tardes deste verão atrasado, em que estava mesmo frio, vimo-lo cá fora e ralhamos com ele: então vai sair com este frio?! Respondeu-nos, como quem se desculpa: Pois vou. Prometi que iria lá ao fim da tarde e a pobre mulher não tem culpa que esteja frio e que eu me tenha sentido pior!


E lá foi ele, no irreversível cumprimento do seu dever de Médico, que se esquece de si próprio para acudir ao semelhante.


«O Arauto de Osseloa» tinha, no Dr. Flausino, não só o melhor dos seus Colaboradores, como o conselheiro que está por dentro em todos os segredos do jornal. Nunca nos fez o mais leve reparo. Sempre nos aceitou como nós éramos e somos. Esperamos não ter perdido ainda o Colaborador, porque já temos promessa de nos serem reservados os textos, sobretudo poesia, que forem achados.
Não tenham pena de mim» — recomendava, no seu último texto.


Não, não teremos pena de Vós. O que precisamos é de ter pena de nós, que perdemos a Vossa presença física e a quem Vós fazeis tanta falta, pelo encanto do Vosso convívio, pela altura da Vossa sabedoria, pelo senso do Vosso conselho, pela tolerância do Vosso trato, em suma, por aquelas confortantes palavras diárias das 10 horas da manhã, naquele Vosso consultório, que virou altar de saudade, encerrado para sempre.


Vasco Mourisca, Arauto de Osseloa, 15/10/1983

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