quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Solipas

Muito agradecido pela carta que publicou no Jornal de Albergaria, de 22.08.2006.

Você nem imagina o bem que me fez por ter a disponibilidade, a ousadia e a coragem de falar das solipas que gasearam o Centro Cívico de Albergaria nas últimas semanas – serão cinco, serão dez? Já não me lembro, talvez fruto da toxicidade do conservante volátil ou do descanso proporcionado pela morte das melgas num raio de 500 metros do epicentro do «solipal» nauseabundo.

Até eu que nasci e cresci a cheirar solipas e até já sentia saudades do Sr. Abel Assentador, acabei a senti náuseas de tanta solipação junta.

E então a sua carta lembrou-me outras hipóteses, outros desafios, a hipótese de ver a evolução da “Central Peninsular” a abrir um conjunto de auto vias férreas ligando a Grande Área Metropolitana do Vouga, o que implicaria novos traçados ferroviários e a requalificação do Centro Cívico de Albergaria que incluiria, em torno do espaço das Praças centenárias denominadas «Ferreira Tavares» e «5 de Outubro» a reanimação do Café Leão, do Café Girassol, da Adega Alameda, do Teatro Alba, a edificação do novo Quartel dos Bombeiros e a reinstalação de todos os serviços públicos na «Domus Municipalis».

Seria uma grande festa!

Estarei a sonhar?

Passaram 150 anos desde a chegada das solipas ao nosso Portugal, reinava D. Pedro V, governava Fontes Pereira de Melo.

Por estas paragens Albergarienses a efeméride passou ao lado, talvez porque o Vale do Vouga já não tem interesse, talvez porque na Quinta da Máquina já não se fazem solipas, talvez porque as solipas eram um “minério” de uma “mina” esgotada, talvez!

No nobre espaço do que resta da gare ferroviária de Albergaria-a-Velha, se calhar, para comemorar a efeméride, alguém tardiamente tocado pelo iluminismo edificou um monumento feito de solipas, pensava eu! Só que o monumento foi desfeito antes da efeméride e no seu lugar ficou um pequeno amontoado de “ossadas” de velhas solipas petrificadas.

As solipas “idosas” lá continuam. Lá continua o cemitério da solipação. O fedor entratanto já se foi. A vista grossa porém continua. Sim, a vista grossa. Estamos todos carentes de afinar a vista. Também estivemos carentes de afinar a pituitária. Como é possível passarmos ao lado, indiferentes ao retorno do espectro visível reflectido nas tais solipas que deveria sensibilizar a nossa retina e, afinal, não sensibiliza? Que razão obscura nos impediu de sentir a emanação gasosa provinda das entranhas daquela rima de solipas?

Que razão?

Ah! A razão está gasta, dirão os “donos” da razão. A razão está velha, dirão outros. A razão tem 2500 anos, digo eu.

Com razão.

Elísio Silva / Fórum BVAV - 2006

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